Escola e fracasso: quem assume a responsabilidade?


Trabalho em duas redes municipais vizinhas. A do Rio e a de Caxias. Nesse momento estou trabalhando em situações quase opostas: Uma escola num bairro muito bom da zona norte, Vista Alegre. Só estudam nessa escola os moradores do bairro, não tem comunidades carentes por perto, o bairro é cheio de recursos, opções de lazer, os pais dos alunos têm um poder aquisitivo razoável. A outra no bairro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, o bairro onde fica o maior lixão da América Latina. Pobreza extrema, lixo, fracasso, violência. Violência principalmente social.

É claro, e eu nem preciso dizer em qual das duas eu me deparo com o fracasso de frente todos os dias. O que será que acontece em Jardim Gramacho e não acontece em Vista Alegre? Qual a diferença entre os cérebros destes alunos? Você pode me dar uma série de fatores: Infraestrutura local, recursos da Rede de ensino, presença e nível de escolaridade dos pais, alimentação, saúde, etc. Eu vou dar apenas um fator: a discriminação.

Aqui em Vista Alegre eu sou professora regente, tenho uma turma de 4º ano, de 33 alunos. Todos leitores, participativos, famílias atuantes. Estou sinceramente amando o trabalho, e tenho muito mais ânimo pra trabalhar e inventar coisas novas. Minha turma tem até um blog, que eu criei a pedido deles. Outro mundo pra mim, depois de 9 anos trabalhando em Acari. Lá em J. Gramacho eu sou orientadora pedagógica. Não atuo dentro de sala, mas junto aos professores, que tentam trabalhar nadando contra a maré, lutando contra todos os poréns. E me sinto muito, muito responsável. Apesar de estar trabalhando lá há apenas 2 meses.

Os alunos pobres e negros parecem condenados ao fracasso. E a escola - aqui não falo mais daquela escola especificamente, mas da instituição Escola Pública - incorpora esse fracasso e rotula os alunos. É cruel, está incorporado no nosso atuar de educadores. Por mais que a gente diga internamente que não, que diga a todos o contrário, mas é evidente: olhamos pra eles e pensamos: "coitadinhos, não irão muito longe. O pouco que conseguirem evoluir será uma vitória." Tentamos negar, mas trabalhamos incorporados com essa ideia e reproduzimos mais e mais o fracasso. Quando esse ciclo vai se quebrar?

Eu não tenho esta resposta. Gostaria de ter. Tenho alguns pensamentos, algumas ideologias, mas sozinha e sem o devido debate sei que não tenho chances de avançar. Apenas quando todos - TODOS - abrirem os olhos e admitirem que a atuação da escola como um todo tem sido medíocre, que estamos reproduzindo o racismo e a discriminação social, podemos realmente "falar sério" sobre o assunto. Quando conhecermos verdadeiramente o cotidiano dos nossos alunos e ultrapassarmos o "mundo encantado" da escola (palavras da minha amiga Marcela), quando percebermos que o negro e o pobre têm a mesma capacidade que os outros, e que têm um poder enorme de mobilização social, talvez possamos começar a pensar uma escola verdadeiramente de qualidade.

Sei que o "sistema" está todo errado. Desvios de verbas, mal uso do dinheiro público, corrupção de forma geral, tudo isso acaba explodindo nas pontas onde o pobre precisa: educação, saúde, segurança, saneamento... mas isso não é justificativa para que o servidor (percebem o significado desta palavra? servidor) público sucumba à cultura do mau serviço público. Tenho ódio de gente que deixa o usuário do que quer que seja esperando por motivos fúteis. Gente que se atrasa pra chegar ao serviço e quando chega, em vez de começar logo a atender, vai tomar seu cafezinho e fumar um cigarro calmamente, enquanto o cidadão espera desoladamente. Isso é ridículo. É claro que precisamos lutar sempre por melhores condições de trabalho. Mas sinceramente, pra ser digno do título de servidor público é necessário ter o intuito de servir. Fazer a sua parte dignamente pode fazer a diferença na vida de várias pessoas.

Aline Pereira Felicio de Souza, graduada em Pedagogia. Professora de séries iniciais e orientadora pedagógica.

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