quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A inclusão (Parte 1)

Quando eu trabalhava em escola particular não havia inclusão. Uma vez apareceu um aluno que parecia ser deficiente mental. Ele mal falava e parecia que a idade mental era de 2 anos, quando ele tinha 5. Várias eram as reclamações dos demais pais, e quando as professoras (que logicamente não tinham informação suficiente) tentavam explicar que o menino tinha alguma deficiência, eram repreendidas pela direção. "tem que ter cuidado pra falar", diziam, mas não diziam como lidar com a criança. Ele ficava lá, não participava muito das coisas.

Até que um dia perceberam que o garoto sabia ler TU-DO! Qualquer coisa. Mandavam ler, lia. Com fluência. Não esqueço a marca da televisão que tinha lá: Kirey. E, nessa época, o K, W e Y nem faziam parte do alfabeto da Língua Portuguesa. Ficamos maravilhadas, e pedimos que a escola o adiantasse um ano. A diretora disse que não o faria porque ele só lia letra bastão, e não letra cursiva. A mãe o tirou da escola, depois não tive mais notícia sobre ele.

Quando entrei na educação pública é que fui ver direito o que é inclusão. E pensava todas aquelas frases de senso comum:

"Essa criança deveria estar na classe especial."
"Os professores não têm formação para trabalhar com aluno deficiente."
"Inclusão desta forma é exclusão,"
"A criança não acompanha o restante da turma. Se passar, vai passar sem saber nada."

Falando ou não, querendo ou não, cada vez mais alunos com alguma deficiência eram matriculados, e eu (e todos) tinha que aprender a lidar com cada um. Ou dois. Ou mais, na mesma turma. Eu tinha duas opções: Continuar reclamando e continuar deixando meus alunos jogados no cantinho, rabiscando um papel ou procurar a melhor forma de atendê-los. E, por muito tempo, escolhi a primeira opção.

Não, a mudança não acontece rapidamente. A mudança é aos poucos. A cada avanço que a criança tem. A cada coisa nova que aprende. A cada nova interação. Um dos alunos que me ensinou muito sobre inclusão foi o Rodrigo. Ele era cadeirante, o melhor aluno da turma. Seus pais revezavam na escola, pois esta não tinha instalações adequadas de banheiro, e também o menino quando começou não tinha cadeira. Era conduzido no colo para os lugares. Mas o que me fez refletir foi o comportamento dos alunos. Todos, todos eles interagiam com o colega da melhor forma possível. O que é esta forma? Brincando com ele, sem tratar como coitadinho, mas compreendendo seus limites.

Percebi que as crianças, por mais levadas/malcriadas/difíceis/enlouquecedoras que sejam, sabem lidar com crianças deficientes MELHOR do que nós adultos. Elas não excluem. Elas ajudam, compreendem, aprendem. E eu comecei a aprender com elas.

Sem me especializar no assunto, de forma intuitiva, fui mudando minha forma de lidar com os alunos inclusos (portadores de necessidades especiais). Comecei a ouvir relatos de alunos que vieram de escolas particulares que não souberam lidar com eles. Que, mesmo de forma velada, "expulsaram" estes alunos. E concluí: A escola pública sabe incluir muito melhor. Não porque somos muito bonzinhos; porque não há outra saída: a educação é direito de TODOS.

No próximo post vou falar sobre minha experiência como mãe de uma criança portadora de necessidades especiais - numa escola particular.


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