A inclusão escolar: Um sonho ainda distante.

Quando eu trabalhava em escola particular não havia inclusão. Uma vez apareceu um aluno que parecia ser deficiente mental. Ele mal falava e parecia que a idade mental era de 2 anos, quando ele tinha 5. Várias eram as reclamações dos demais pais, e quando as professoras (que logicamente não tinham informação suficiente) tentavam explicar que o menino tinha alguma deficiência, eram repreendidas pela direção. "tem que ter cuidado pra falar", diziam, mas não diziam como lidar com a criança. Ele ficava lá, não participava muito das coisas.

Até que um dia perceberam que o garoto sabia ler TU-DO! Qualquer coisa. Mandavam ler, lia. Com fluência. Não esqueço a marca da televisão que tinha lá: Kirey. E, nessa época, o K, W e Y nem faziam parte do alfabeto da Língua Portuguesa. Ficamos maravilhadas, e pedimos que a escola o adiantasse um ano. A diretora disse que não o faria porque ele só lia letra bastão, e não letra cursiva. A mãe o tirou da escola, depois não tive mais notícia sobre ele.

Quando entrei na educação pública é que fui ver direito o que é inclusão. E pensava todas aquelas frases de senso comum:

"Essa criança deveria estar na classe especial."
"Os professores não têm formação para trabalhar com aluno deficiente."
"Inclusão desta forma é exclusão,"
"A criança não acompanha o restante da turma. Se passar, vai passar sem saber nada."

Falando ou não, querendo ou não, cada vez mais alunos com alguma deficiência eram matriculados, e eu (e todos) tinha que aprender a lidar com cada um. Ou dois. Ou mais, na mesma turma. Eu tinha duas opções: Continuar reclamando e continuar deixando meus alunos jogados no cantinho, rabiscando um papel ou procurar a melhor forma de atendê-los. E, por muito tempo, escolhi a primeira opção.

Não, a mudança não acontece rapidamente. A mudança é aos poucos. A cada avanço que a criança tem. A cada coisa nova que aprende. A cada nova interação. Um dos alunos que me ensinou muito sobre inclusão foi o Rodrigo. Ele era cadeirante, o melhor aluno da turma. Seus pais revezavam na escola, pois esta não tinha instalações adequadas de banheiro, e também o menino quando começou não tinha cadeira. Era conduzido no colo para os lugares. Mas o que me fez refletir foi o comportamento dos alunos. Todos, todos eles interagiam com o colega da melhor forma possível. O que é esta forma? Brincando com ele, sem tratar como coitadinho, mas compreendendo seus limites.

Percebi que as crianças, por mais levadas/malcriadas/difíceis/enlouquecedoras que sejam, sabem lidar com crianças deficientes MELHOR do que nós adultos. Elas não excluem. Elas ajudam, compreendem, aprendem. E eu comecei a aprender com elas.

Sem me especializar no assunto, de forma intuitiva, fui mudando minha forma de lidar com os alunos inclusos (portadores de necessidades especiais). Comecei a ouvir relatos de alunos que vieram de escolas particulares que não souberam lidar com eles. Que, mesmo de forma velada, "expulsaram" estes alunos. E concluí: A escola pública sabe incluir muito melhor. Não porque somos muito bonzinhos; porque não há outra saída: a educação é direito de TODOS.

Não adianta espernear: As crianças com deficiência estão entrando nas salas de aula. A cada dia mais. E eu não aguento mais este discurso de "a escola não está preparada". Que tal se preparar então? Eu não estou falando de fazer um curso de pós graduação na área, de fazer outra faculdade. Estou falando de dedicar alguns minutos de seu tempo para ler sobre as diferentes deficiências. Pelo menos aquela com a qual você está tendo que lidar este ano. Estou falando de nós, orientadores/coordenadores dedicar pelo menos um grupo de estudos por ano ao tema inclusão, abordando as deficiências que estão na escola naquele ano.



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