Por que as crianças não estão aprendendo? Saiba os 5 possíveis motivos e como mudar isso.
As crianças não estão aprendendo?
As crianças estão aprendendo, os bebês, os jovens, os adultos e também os idosos estão aprendendo, sim. O tempo todo. Porém, não estão aprendendo O QUE queremos, COMO queremos e QUANDO queremos. Mas aprender é o que o cérebro humano mais sabe fazer. E faz dia e noite. Como assim?
Quando um recém-nascido chora (única coisa que já vem configurada de fábrica), nós percebemos que ele precisa de ajuda, certo? Porque não há nada que ele possa fazer sozinho. Então o pegamos no colo e atendemos à sua necessidade mais urgente, seja fome, fralda suja, frio, calor, dor. Assim, rapidamente, ele aprende que, ao chorar, sua necessidade será atendida. Vamos desconsiderar aqui os desvios decorrentes de possíveis deficiências do RN ou dos adultos cuidadores; basicamente, é assim que funciona.
Desta forma, o cérebro humano vai se desenvolvendo e aprendendo. Aprendizagem é mudança de comportamento. É desenvolver uma estratégia para atingir um objetivo. E, por isso, não podemos dizer que a criança “não aprende”. Ela está aprendendo. Porém, cabe a quem está ensinando oferecer os recursos corretos para que ela aprenda novas habilidades que nós, adultos, sabemos que serão úteis e necessárias em sua vida.
As crianças não estão aprendendo os conteúdos escolares da mesma forma que nós, adultos, aprendemos quando crianças. Esta é a questão. E alguns dos principais motivos são:
5 possíveis motivos
Fragilização da leitura
O incentivo à leitura depende da cultura familiar, local e até mesmo escolar. Há famílias que não praticam leitura, muito menos escrita. Há regiões muito pobres em bibliotecas e outros espaços públicos de leitura. Há, por incrível que pareça, escolas e professores que não incentivam corretamente a leitura.
Nesta era digital, os meios de comunicação mudaram totalmente. A língua escrita foi muito restringida em detrimento de vídeos, imagens, sons e símbolos. Não estou aqui dizendo o quanto isso é ruim ou bom. Porém, é preciso refletir que, se quisermos manter o hábito de leitura em uma sociedade, ele deve ser incentivado e estimulado constantemente; caso contrário, a tendência é que se torne um hábito esquecido.
Redução do tempo de atenção
Todo adulto, da geração millennial para trás, tem uma história para contar do quanto o tempo passa diferente hoje em dia. Antigamente, tínhamos tempo para muita coisa e hoje em dia o tempo “voa”. É óbvio que o tempo passa literalmente da mesma forma. O que mudou é nossa atenção.
O excesso de estímulos da vida moderna não nos permite sentir e perceber a passagem do tempo da mesma forma. Cozinhamos vendo YouTube. Treinamos ouvindo música. Vemos filmes e séries mexendo no celular. Quase nunca estamos parados ou realizando uma atividade completamente focados no tempo presente.
Se para os adultos é assim, imagine para crianças que já nasceram no meio desse excesso de estímulos. Dificilmente elas conseguem manter a atenção concentrada em uma única tarefa monótona, sem os estímulos auditivos e visuais com os quais estão habituadas a conviver quase 24 horas por dia.
Por isso, quando uma professora chama uma família e diz: “Sua criança não consegue manter a atenção”, e a pessoa responsável diz: “Mas como assim? Se ela fica horas e horas atenta aos vídeos da TV ou do celular?”, a resposta está na própria afirmação da família.
Mudanças nas relações familiares
O ambiente familiar é peça fundamental na estabilidade emocional do indivíduo. Independentemente da estrutura familiar e do modelo de família, a criança precisa sentir segurança. Esta é uma necessidade básica do ser humano, como consta na própria Constituição Federal. Aqui não estamos falando de segurança pública em si, mas do sentimento pessoal de segurança.
A criança precisa sentir afeto, cuidado, acolhimento e orientação. Uma criança que precisa tomar decisões importantes para as quais ainda não tem maturidade (como tomar banho, ir à escola, dormir no horário certo ou escovar os dentes) não está segura.
Uma criança que tem medo de contar algo porque a consequência pode ser violenta ou vexatória não está segura. Uma criança que precisa tomar conta de outras crianças não está segura.
Percebe como isso não depende do modelo ou formato de família? Depende de que a família tenha sempre adultos responsáveis, física, emocional e financeiramente disponíveis, que os ensinem pelo exemplo e incentivem sua autonomia progressivamente.
Falta de estrutura educacional
Sim, sabemos que muitas crianças aprenderam em escolas superlotadas e caindo aos pedaços. Não estamos falando que é impossível ocorrer uma aprendizagem satisfatória nessas condições. Porém, é imprescindível compreender que as condições do trabalho docente implicam diretamente no sucesso do processo de ensino-aprendizagem.
Podemos incluir nessa equação: número adequado de crianças por sala de aula, tanto em relação ao espaço quanto à qualidade de atenção que os educadores conseguem oferecer; limpeza e manutenção do local; oferta de merenda escolar de qualidade; formação dos profissionais; quantidade de pessoal; presença de profissionais para apoio à inclusão; suficiência e qualidade do material didático — e a lista é imensa.
Sem um espaço adequado física e profissionalmente, pouco se pode fazer para melhorar a defasagem da aprendizagem. E os que, mesmo assim, conseguem aprender, não é POR CAUSA da falta de estrutura, e sim APESAR dela. Outros fatores favoreceram o processo, e nem todas as crianças têm acesso a esses outros fatores.
Excesso de estímulos digitais
Não é novidade para ninguém que o excesso de telas atrapalha a atenção e a aprendizagem. Existem inúmeros estudos que tratam desse tema; uma busca rápida pode comprovar.
Não é novidade para ninguém que o excesso de telas atrapalha a atenção e a aprendizagem. Existem inúmeros estudos que tratam desse tema; uma busca rápida pode comprovar.
Nós, adultos, sabemos o quanto os aparelhos digitais podem atrapalhar nossa produtividade. Agora mesmo, ao escrever este artigo, me peguei várias vezes desbloqueando meu celular sem motivo e abrindo outras abas para pesquisar outras coisas que podiam esperar.
Anos atrás, minha escrita era muito mais fácil; hoje em dia, minha atenção não é mais a mesma.
Então, por que é que, mesmo sabendo dos prejuízos cognitivos, continuamos utilizando e oferecendo celular às crianças? É porque estes aparelhos e tudo o que eles oferecem foram construídos cientificamente para sequestrar nossa atenção. Não porque um vilão malvado quer conquistar o mundo: porque, no contexto atual, atenção significa dinheiro.
Já ouviu dizer que “se você não está pagando pelo produto, o produto é você”? A frase, dita pelo escritor e designer americano Andrew Lewis, mostra que atenção é um bem preciosíssimo que é disputado economicamente de várias formas possíveis.
A forma como você pensa que está escolhendo um vídeo para assistir no YouTube foi meticulosamente calculada pelo algoritmo. Então, não pense que este vício coletivo no ambiente digital é somente falta de força de vontade. Tem investimentos bilionários e milhares de cientistas muito bem pagos para isso.
Sua criança é apenas mais uma vítima deste sistema, assim como você. Você pode lutar, pode ter algum sucesso, mas o problema é estrutural. Num piscar de olhos, estamos novamente envolvidos na teia da economia da atenção.
E agora? Como mudar?
Não existe, infelizmente, uma resposta única, prática e objetiva para esta pergunta. Seria muito mais fácil eu jogar esta pergunta numa inteligência artificial e te oferecer (ou vender) uma solução empacotada. Porém, não há soluções simples para problemas complexos.
O início da solução passa pela análise dos motivos do problema. Não é possível corrigir completamente todos os motivos que podem estar levando sua criança a estar defasada, pois são situações coletivas e estruturais. Não é um problema individual.
Mas compreender a causa pode te tirar do eterno “murro em ponta de faca” de frustrações, castigos, comparações e desânimo. Também não é questão de transformar a criança em “prefeita da coitadolândia” e aceitar que é assim mesmo.
Não há mágica: são pequenas mudanças na rotina e implementação de hábitos que vão mudar pouco a pouco esta realidade. E cuidado: mudanças radicais demais podem não ser sustentáveis a longo prazo.
A seguir, vou resumir em uma tabela alguns caminhos práticos para te ajudar a clarear as ideias. Mais para frente, vamos trazer algumas destas ideias mais detalhadamente. Mas, lembrando: nada disso é solução mágica!
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Causa principal |
Caminho da solução |
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Fragilização da leitura |
Ler para a criança; Ler com a criança; Dar leituras para a criança; Lembre-se: o exemplo arrasta. |
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Redução do tempo de atenção |
Incentive (e pratique você também) atividades analógicas agradáveis
que exercitem a atenção, como jogos (forca, jogo da velha, jogo da memória,
dominó, quebra-cabeça), atividades manuais (colagem, pintura, modelagem,
crochê, bordado, costura, etc), atividades físicas que estimulem o equilíbrio
(andar num pé só, bicicleta, andar sobre uma linha, etc) |
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Mudanças nas relações familiares |
Ofereça segurança para a criança: dê afeto,
alimento, rotina e limite. Não abra mão de sua autoridade. |
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Falta de estrutura educacional |
Organize-se junto ao Conselho Escolar para reivindicar melhorias na estrutura
escolar |
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Excesso de estímulos digitais |
Limite o consumo de conteúdos digitais, de acordo
com a idade da criança. Crie pequenas metas de desconexão e vá aumentando aos
poucos. DÊ O EXEMPLO! |
Concluindo...
As crianças nunca pararam de aprender; nós, adultos, também não.
O problema é que nós, enquanto adultos, estamos aprendendo, de forma muito atropelada, a nunca estar 100% presentes em nada. E estamos ensinando, pelo exemplo, nossas crianças.
Não é uma situação simples de resolver, mas também não dá para cruzar os braços e aceitar. A ação é urgente, e não dá para ficar esperando uma motivação ou inspiração cair do céu.
Vamos correr atrás do prejuízo.
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Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Art. 227.
OECD. Do Students Today Read for Pleasure? PISA in Focus, n. 8. Paris: OECD Publishing, 2011.
OECD. PISA 2018 Results, Volume III: What School Life Means for Students’ Lives. Paris: OECD Publishing, 2019.
UNESCO. Global Education Monitoring Report 2023: Technology in education – A tool on whose terms? Paris: UNESCO, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Geneva: WHO, 2019.


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