Como tirar a tela do seu filho? Um guia prático sem atividades mirabolantes para pais sem rede de apoio.
Como tirar a tela do seu filho? Um guia prático sem atividades mirabolantes para pais sem rede de apoio
Se você
chegou aqui é porque está buscando como tirar o celular da criança. Você já
percebeu que o excesso de telas faz mal e que a criança já não consegue
concentrar tanta atenção quanto antes.
A ideia
aqui é que você consiga sair dele sem mudanças abruptas nem fazer sua casa
virar um centro de recreação super equipado em tempo integral. Eu já vejo a
cena: choro, gritos, discussão, cansaço... e o celular sempre vence. Ele vira
uma solução mágica que acalma a criança e permite aos adultos continuar sua rotina.
Daí vem a frustração e a promessa de que amanhã será diferente. Você busca no
Google "como reduzir o tempo de tela das crianças" e se depara com
mais 200 tarefas para incluir na sua rotina.
O sonho
de toda mãe, pai ou responsável consciente é criar uma infância sem telas. Como
isso é praticamente impossível, a gente sente que falhou. Mas me dá aqui a sua
mão: quero sugerir um novo sonho, mais fácil de alcançar: que a tela não seja
mais a principal opção de entretenimento da criança.
Antes de tirar a tela, precisamos entender qual
função ela está exercendo na sua casa
Me diz
aqui se você se identifica com algumas destas situações:
Pedrinho
é filho único. Chega da
escola, toma banho, almoça. Aquela conversa: como foi a escola hoje? Foi boa.
Acabou o almoço, escovou os dentes. O adulto precisa continuar com seus
afazeres. Pedrinho pega o celular e vai jogar. Já coloca um vídeo, outro,
outro. Entra na rede social, vai rolando os reels e volta para o joguinho.
Nunca se sente sozinho, pode falar no WhatsApp com o pai, a dinda, o primo e o
coleguinha da escola. Nisso, já está na hora do lanche. Depois, tarefa de casa,
jantar, um pouco mais de conversa com os pais e logo é hora de dormir. A rotina
continua amanhã.
Agatha
tem 4 anos. É a
alegria da casa desde que nasceu. Seu irmão mais velho já é um pré-adolescente.
Essa menina é ligada no 220, dizem todos da família. Espertíssima, canta,
dança, aprendeu a dar estrelinha e vive mostrando suas piruetas para todos. Ama
brincar de tudo, principalmente as brincadeiras mais agitadas. Não falta
carinho de seus pais e da vovó, que cuida dela durante a tarde, até a mãe
chegar do trabalho. Mas falta energia. Não que os adultos estejam com anemia. É
que não é fácil acompanhar o ritmo dessa mini querida! Os pais foram contra, mas
a dinda deu um tablet de presente para Agatha, ensinou a usar joguinhos
pedagógicos e instalou o YouTube Kids. Nessa hora, tudo silencia: chega a dar
um alívio para os ouvidos. Depois de longas horas de trabalho, os pais deixam
ela ficar um pouquinho mais no tablet para dar um tempinho de respirar, porque
amanhã começa tudo de novo.
A mãe de
Isabelly conseguiu o emprego dos sonhos. Finalmente está ganhando um salário parecido com o
do emprego anterior, mas o principal benefício deste novo emprego é que ele é
home office. Adeus, duas horas de ônibus e metrô lotado para ir e voltar.
Adeus, escala de fim de semana. Finalmente chegou a qualidade de vida e a
possibilidade de estar perto de sua pequena, que não terá que ficar 12 horas
diárias com babá ou na creche. Isabelly até que é quietinha, tranquila, brinca
sozinha com suas bonecas e canetinhas. Mas, como toda criança, requer atenção
e, conforme a Lei de Murphy, essa carência sempre aparece na hora de uma
videoconferência com o chefe regional. Não tem jeito: tem que dar o celular
para ela ver o Mundo Bita, que ela tanto ama. Não dá para arriscar perder este
emprego.
Henrique
tem 12 anos, estuda de tarde. De manhã, faz explicadora das 8h às 10h. Às terças
e quintas, tem inglês depois da aula e, às segundas e quartas, futebol de
salão. Henrique não sabe o que é sentir tédio: sua vida é agitada e ele gosta
disso. Mas, em todos os momentos em que não é proibido, lá está o celular na
mão. No caminho da escola, no caminho do curso, enquanto espera a próxima atividade,
no final de semana. A única hora em que Henrique não olha para uma tela, fora
suas atividades semanais, é quando está dormindo. Mas lá está o fone de ouvido,
porque ele dormiu assistindo a seus vídeos de gamers favoritos.
Maria
Antônia tem o gênio forte. Puxou a mãe dela, o pai diz, rindo de nervoso. Acaba conseguindo tudo o
que quer na hora que quer. E não é por falta de tentativa dos pais. Ninguém
sabe como começou. Mas, quando frustrada, lá vem o berreiro e objetos atirados
no chão. Seus pais são trabalhadores, responsáveis e amorosos. Mas a vida é tão
complicada e corrida que a última coisa que querem é mais uma sessão de
berreiro. Dá logo o celular na mão dela para termos um pouquinho de paz, pelo
menos para jantar e descansar. Só come na frente da televisão. Só senta na
cadeirinha do carro com o tablet na mão. Só para de gritar e mexer em tudo na
recepção do médico se a mãe der o celular na mão dela. Não se sabe quando
começou nem quando vai acabar.
Perceba
que, em todos esses exemplos, não existe um pai ou mãe vilão, que deu o
aparelho na mão da criança por preguiça. Existiram ocasiões nas quais foi
inevitável o contato da criança com a tela, e a coisa acabou saindo do
controle. Não se culpe! A culpa é uma energia gasta à toa. Você tomou consciência
de que isso precisa mudar. Use energia para criar estratégias e começar a
mudança. Antes uma mudança longa e sustentável do que tirar todas as telas na
segunda e devolver na quarta.
Ao
identificar os principais momentos em que a criança usa o celular, o próximo
passo não é retirar abruptamente nem criar atividades mirabolantes. Primeiro,
identifique:
• quando
a criança mais usa;
• quais conteúdos consome;
• quanto tempo fica;
• quais momentos são mais difíceis sem tela;
• quais usos são mais negociáveis.
Depois,
classifique os momentos em: mantém por enquanto → reduz → elimina.
Não transforme sua casa em um centro de recreação
Não se
preocupe: aqui eu não vou te dar ideias custosas e mirabolantes como caixa
sensorial, massinha caseira, caça ao tesouro e brinquedos educativos de sucata,
embora sejam realmente ideias muito boas. Mas EU SEI! que, se você se encontra
em uma situação na qual as telas se tornaram inevitáveis, é JUSTAMENTE porque
você não tem tempo, energia ou habilidade para transformar sua casa num espaço
montessoriano para entreter sua criança. Veja, eu não estou dizendo que este
tipo de conteúdo é ruim. Mas aqui eu só quero te dizer que te entendo e te
pegar pela mão para você começar a ver aquela luz no fim do túnel: diminuir o
uso de telas pode ser possível.
O tédio não é um problema
Sentir
tédio é um momento normal de todo ser humano. O "não ter nada para
fazer" não precisa ser necessariamente resolvido. Nosso cérebro fica tão
habituado a ser constantemente e exageradamente estimulado que um momento de
pausa parece um alerta. E não é. O tédio é o momento no qual as ideias podem
ficar mais claras e o silêncio nos deixa lidar com nossas próprias emoções.
Mas, se nós, adultos, temos dificuldade com isso, imagina uma criança.
Como
ajudar a criança a se habituar com o tédio? Vale propor um exercício em curtos
períodos de tempo. Começa com 1 minuto, depois 3, depois 5... Em algum momento
do dia, por exemplo, após o almoço. Coloque o cronômetro e determine: agora é o
momento do nada, ou estabeleça um nome lúdico e criativo para este exercício.
Sente-se junto com a criança e espere. Sem falar, telas, música, brincar ou
dormir. Só existir. Pode criar uma ideia de desafio ou jogo, mas não é
interessante que haja uma recompensa grande logo após. É importante que a
criança, dependendo da idade, compreenda o papel do tédio.
O que colocar no lugar da tela, sem virar recreador
👉 Atividades que a criança pode fazer sozinha
• ler ou
olhar livros;
• quebra-cabeça;
• brincar com objetos cotidianos, como potes, colheres, copos, grãos etc.,
dependendo da idade.
👉 Atividades que fazem parte da vida da casa
• ajudar
a cozinhar;
• guardar roupas;
• lavar frutas;
• ajudar a preparar a mesa.
O
ambiente influencia muito. Em vez de pensar "o que vou fazer com minha
criança agora?", pense "o que posso deixar disponível para que ela
não precise de mim o tempo todo?" Por exemplo:
• livros
ao alcance;
• objetos não estruturados;
• espaço para desenhar.
E quando os adultos precisam da tela?
Às vezes
você precisa tomar um banho, ir ao banheiro, fazer uma refeição, resolver um
problema urgente ou simplesmente de vinte minutos de paz. Então você pensa:
como vou fazer isso e deixar minha criança sem tela?
Nesta
hora costuma bater a culpa, o sentimento de fracasso e a frustração. Mas não é
por este caminho que a situação vai se resolver. Precisamos separar aqui duas
situações distintas:
uso
estratégico da tela x tela ocupando todo o tempo livre da criança.
Ter isso
em mente vai te colocar com o pé no chão para o próximo passo.
Plano de 7 dias para começar
Dia 1 -
Observe
Não mude nada. Descubra quando e por que a tela aparece.
Dia 2 -
Escolha um momento para retirar
Ex.: primeira hora depois da escola.
Dia 3 -
Prepare o ambiente
Deixe livros, brinquedos e materiais acessíveis.
Dia 4 -
Inclua a criança na rotina
Uma tarefa doméstica simples.
Dia 5 -
Crie um período sem tela previsível
Mesmo curto.
Dia 6 -
Tolere o tédio
Não corra imediatamente para preencher o silêncio.
Dia 7 -
Avalie
O que funcionou? Onde houve mais conflito? O que precisa ser ajustado?
O que provavelmente não vai funcionar
• retirar
tudo de uma vez sem planejamento;
• substituir celular por uma agenda lotada de atividades;
• comprar vários brinquedos esperando resolver o problema;
• negociar cada minuto de tela;
• usar ameaça constantemente;
• exigir que a criança "saiba brincar sozinha" imediatamente;
• comparar seu filho com filhos de outras famílias;
• copiar rotinas de famílias que têm uma rede de apoio completamente diferente
da sua.
Percebe
que uma rotina construída ano após ano não pode ser mudada em poucos dias
somente com sua força de vontade? Vamos ser realistas. Problemas complexos não
têm soluções simples.
Um olhar especial e responsável para além das telas
Se a
criança apresenta sofrimento intenso e duradouro diante de qualquer limite,
prejuízos importantes no sono, dificuldades de convivência ou não consegue
realizar atividades do cotidiano sem a tela, é o momento de considerar uma
avaliação pediátrica ou profissional.
A meta não é uma infância perfeita
Você que
não tem uma grande (ou nem pequena) rede de apoio não precisa de mais
obrigações. O que vai funcionar é partir da reflexão para pequenas mudanças de
rotina que preencham, progressivamente, os espaços que a tela ocupa. A infância
da sua criança pode ser verdadeiramente simples. Só precisa ter de volta aquilo
que a tela ocupou: brincar sem programação, participar do cotidiano da casa e
tolerar o tédio.
Respira.
Você está fazendo o melhor que pode.
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